Pokémons

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A história saiu em todos os jornais. “Pequeno hospital está usando o Pokémon Go para tirar crianças da cama”. E que sucesso, fazer pequeninas criaturas com pouca força terem o ímpeto de se movimentar para se divertir com um joguinho de celular e, ao mesmo tempo, melhorar a qualidade de vida delas. O diretor da clínica deu entrevistas em vídeo e áudio, escreveram sobre sua atitude do caderno de cidades até sites internacionais. Segundo ele, a iniciativa mudou drasticamente a rotina dos pimpolhos, fazendo com que eles explorassem mais o entorno da clínica e até que incentivassem uns aos outros a irem cada vez mais longe, a não se deixarem vencer.

A bateria de repórteres foi embora às lágrimas e sorridentes. Se enfiaram em seus carros e aceleraram, com o desejo de publicar o quanto antes aquele relato imaculado de um bem querer fora do comum. Mal a poeira da estradinha de cascalho em frente à clínica havia baixado e o diretor, um homem baixo de cavanhaque esbranquiçado e olhos bem pequenos já estava acendendo seu cigarro com um fósforo. Puxou a fumaça e a soltou para cima, inspirando depois o ar gelado do fim da tarde. Pegou seu celular para verificar que horas eram e aproveitou para abrir o aplicativo de capturar monstrinhos.

Trezentos e dezoito criaturas conquistadas, noventa delas eram serezinhos de diferentes espécies. Tinha muito trabalho ainda pela frente. Jogou o cigarro fumado no chão e mandou acordar as crianças.

Acontece que o diretor da clínica infantil mantinha um programa de pegar Pokémons utilizando o trabalho dos pacientes para amplificar suas conquistas. Afinal, como caminhar quilômetros e em diferentes direções se precisava administrar sua casa de saúde? Para não perder tempo e ganhar opções mais variadas de bichinhos, esquematizou turnos matinais e vespertinos em que, dos mais saudáveis aos mais debilitados, todos procurariam com seu celular da maneira que ele ordenasse. Uns teriam de ir mais distante enquanto os mais fraquinhos repetiam trajetos curtos em pokesposts e pokeplaces definidos para acumular itens, bolas e ovos que seriam chocados com a caminhada dos mais pimpolhos. Até os acamados ficavam de vigília quando o aparelho estava carregando para, assim que atingisse os cem porcento, fosse retirado para novas buscas. Marcava tudo em uma tabela, os nomes e caminhos, o que conseguiram e até quantas pokebolas haviam gasto, qual doença seria capaz de entrar em determinadas atividades. Os com melhor desempenho não faziam mais que a obrigação enquanto os que traziam falhas ficavam sem sobremesa, os que poderiam comer, claro.

Sua ideia era chamar, o mais breve que pudesse, novamente a imprensa para poder relatar que seria a primeira pessoa a capturar todos os Pokémons do jogo em menor tempo.

Jader Pires