Os olhos diante da morte do amor | Do Amor #56

Tirou os óculos e esfregou as palmas das mãos contra os olhos. O cansaço. Sozinha no quarto fechado, mantinha uma frenética dança com os olhos que bailavam entre dois livros e os ponteiros do relógio que tintilhava na escrivaninha. 

E quem é que iria se concentrar em estudos de economia rural? Quando entrou na faculdade de veterinária, claro, tinha o romântico sonho de mexer com os bichos, de lidar com animais e não com contas, negócios, sustentos. Mas era o que tinha de mais urgente para recuperar em notas e não podia deixar essas horas de estudo irem para o ralo. Mas, quanto mais ela tentava se concentrar nos números, mais a lembrança dos passeios com o avô tomavam espaço em sua cabeça, das épocas em que tirava férias e ia para o interior por um mês inteiro para brincar em ruas tranquilas com os primos e passear no mato, ver os pastos. O avô sempre a levava pra ver as vaquinhas e bois ruminando serenos naqueles quadrados verdes enormes. 

Ele lembra e ela suspira. Uma pequena fuga com a ajuda das memórias. Se recorda do dia em que eles passaram ao lado de um matadouro rudimentar, um pequeno espaço feito em madeira para abater um gado pequeno. Bem no momento do trajeto deles, dois homens levavam um dos bois para ser morto. Nunca mais saiu da cabeça dela a passividade do animal e a maneira com que os olhos dele se encheram de um negro profundo antes do fim. Mais tarde ela estudou que aquele fenômeno se chama midríase, uma contração profunda do músculo dilatador da pupila que dá ao olho esse aspecto estranho, essa abertura incomum da parte escura, que pode ser causada pelo abuso de drogas como a cocaína e o LSD, chega a ser efeito colateral de algumas medicações para síndrome do pânico e também é comumente observada em bovinos a caminho do abate, devido à descarga de adrenalina que os animais têm face à morte iminente.

Ao lembrar do fato, lhe deu vontade de tomar leite. Quando passou pelo trauma, foi tomada de uma tremedeira que só passou quando o avô a distraiu levando para o outro lado, onde havia três vaquinhas, e lhe deu leite recém ordenhado. Aquele líquido viscoso e quente foi devolvendo estabilidade pro seu corpo de menina. Foi para a cozinha e encheu um copão com leite e saiu tomando de goles longos e sedentos.

E nisso o interfone tocou.

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Por mais que ela tivesse dito que precisava estudar, mesmo assim ele apareceu no final da noite, achando que conseguiria uma brecha para conversarem. Desde cedo ele caminhava sem parar no trabalho e em casa imaginando o que ela tinha de tão importante para dizer quando comentou que precisava falar com ele, mas que poderia esperar passar os estudos para que pudesse ser dito. Não se aguentou nas voltas pela sala e foi atrás dela.

Em vez de abrir o portão para que ele subisse, foi ela quem desceu as escadas até a portaria. Ficaram os dois debaixo da garoa fina enquanto ela dizia que precisava se concentrar na matéria e que ele deveria saber o quão importante aquelas horas eram pra concentração dela. Ele se desculpou e explicou a situação de sua ansiedade, o porquê de não ter se segurado, a razão de ter caminhado na chuva fina pra saber ao menos qual assunto era de grande importância para eles conversarem.

E ela descarregou. Contou do pouco espaço, da vontade de ficar sozinha, da necessidade de se concentrar em outra coisa que não no relacionamento deles, "você é um cara legal, só não é meu melhor momento" e, quanto mais ela se explicava, mais as pupilas dele iam tomando espaço nos olhos. Os ombros iam ficando relaxados, o pescoço mais mole, as mãos enfiadas nos bolsos. Ele nada disse, só escutava as razões dela e, com os olhos mortos na direção dos próprios tênis, monótonos, débeis, escuros. 

Ao encarar a postura derrotada do menino, de repente lhe deu vontade de tomar leite.

O amor traz cada lembrança...

Jader Pires