Ela transava e ele não fazia nada | Do Amor #230

A penetração. Seu corpo descia até que rápido , mas a cabeça monitorava cada minúcia e pormenor da penetração, a musculatura interna, o gelo que lhe subia o corpo e queimava os pulmões, uma falta de ar, os dentes flagrados na penumbra do abajur, o sorriso escapado, criminoso. apertou-se contra o corpo abaixo do seu, uma super audição sexual a fez escutar o crec crec dos seus pelos contra os pelos dele, sem nome, sem passado, o apreço de ter chegado no horário combinado e fazer tudo do jeito que haviam combinado, sem desvios de caminho, sem invenções. Quando passou pela porta, um oi de leve feito com um dos cantos da cabeça, o viu despir-se no canto do quarto, o marido observava tudo, a roupa dobrada sem pressa, os calçados perfilados perto do batente. Ele mesmo vestiu a camisinha, trocaram beijos em pé, eles em uma das cabeceiras, o esposo deitado na outra. Transaram rápido, ela não gozou. Passou um café ainda nua, os pés descalços no chão gelado da cozinha, o corpo usado por ela, já vestido, tomou um gole, dispensou educado a fatia de bolo. Ele evitou perguntar, ela não se importou em não responder. Lá se foi o primeiro da tarde.

Antes do anoitecer, com a sala aspirada, os cacarecos de porcelana de espanador passado, recebeu outra visita. A casa encheu-se aos poucos de um papo cheio de rodeios, um aquecimento que para ela e para o marido era mais desnecessário, mas percebeu na voz meio esganiçada do moço que o medo e o desejo caminhavam bem lado a lado, em medidas muito parecidas, então gastar o primeiro ao falar pelos cotovelos parecia ser a grande chance de fazer prevalecer o segundo. Batata. Quinze minutos depois ele estava mastigando a barra da camiseta, comendo a dona na casa de quatro na beirada da cama, o marido de olhos arregalados. Ele disse que ia sair do quarto para fumar um cigarro, ela pediu para ele fumar ali mesmo. O rapaz olhou para o dono da casa, recebeu de volta olhos fechados e silêncio. Não abriram a janela, deixaram a fumaça impregnar nas paredes e na coberta. O cheiro foi percebido pelo terceiro e último homem da noite, um fortão atlético que comentou do sarro incomodando suas narinas depois de trepar com o pé empurrando a cabeça da mulher contra o travesseiro. Quando ela sentiu o áspero da mão dele estalar contra o seu rosto, uma luz arroxeada tomou conta de sua visão. Meio zonza, pediu outro. Mais forte. Quase desmaiou, o cara a xingando de nomes que ela nunca aceitaria na cama, o esposo sem mexer uma palha, ganhou de presente também um desacato ou dois. Corno. Cuzão. Piscou, respirou fundo. Não mexeu a boca em resposta. O cara fez questão de arrancar o preservativo e deixar atirado ali no chão. O quarto passaria a madrugada num torpor de bituca, de porra e látex. Ela foi dormir na sala. O marido ficou na mesma cama.

Nos dois meses seguintes a rotina foi estabelecida, duas vezes, três vezes na semana, dois, três homens, teve uma vez que dois vieram juntos, mas não se repetiu. após o almoço, o marido escutava o tranco da porta, um carro desligando o motor, os perfumes, as vozes grossas falando pouco, tirando dúvidas simples, nunca ouvia as respostas dela, ficava imaginando se ela dizia as coisas baixinho ou se simplesmente empurrava a cabeça para cima e para baixo ou a girava em sentido horário e anti-horário para concordar ou discordar do que era dito nos outros cômodos. Dificilmente escutava o chuveiro, mas a descarga lá no banheiro era sempre utilizada, antes e depois. O lençol, não viu sendo mais trocado. o mesmo xadrez tremelicando a cada homem que passava por lá, manchas de suor e cuspe se acumulando. Às vezes, em vez de prestar atenção no sexo, ele contava manchinhas que conseguia enxergar, quieto do lado dele na cama. Se se distraísse muito, as manchas escuras e amorfas viravam um volante, a canção da Elba Ramalho voltava a tocar em sua lembrança, a amante se mexendo em demasia dentro do carro, o telefone mostrando na tela a quinta chamada da esposa. O flash do farol, do caminhão o trazia de volta ao momento como um flash de filme, o corpo da esposa recebendo estocadas, bordoadas e mordidas, os homens, estranhos, todos eles, cada vez mais a vontade, o corpo imperturbado do marido, sempre estático, seis meses de coma, quadriplegia severa, a esposa vendo como o óbvio fardo. Nunca mais ouviu falar da amante. Ela teve escoriações simples e desapareceu. A mulher o alimentava, trocou suas roupas um par de vezes. Depois parou. Depois a viu desistir de trocar também a roupa de cama. Parou de abrir as janelas. Começou a convidar estranhos. Dezenas deles. 

Ocasionalmente, em dias mais tranquilos e sem visitas, ele podia escutar a esposa cantando baixinho onde ele sabia ser a cozinha.

Jader Pires